sexta-feira, 14 de outubro de 2011


A Lenda do Zumbi

 Zumbi
A maioria dos nossos temores se escondem dentro da escuridão da noite.
Vem do Quimbundo[1] nzumbi, espectro, duende, fantasma. Para as antigas tradições africanas, vem do termo nzámbi, divindade, título adotado pelos chefes sociais. Entre os Cabindas[1], quer dizer Deus.

Zumbi foi o título do chefe dos rebelados escravos que se refugiaram no Quilomdo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas. Em Sergipe, Zumbi é um negrinho que se confunde com o Saci, que aparece nos caminhos em meio à mata e é companheiro da Caipora, mas não usa a carapuça vermelha. Anda nu ou quase nu, sempre procurando crianças que vão pegar frutas sivestres, para desorientá-las com seus longos e finos assobios, ou surrá-las, como faz o Curupira.

No Rio de Janeiro, fala-se de umZumbi da meia-noite, um espectro que vagava à noite alta pelas ruas intimidando as pessoas. Relato semelhante a esse, também foi colhido no interior de Pernambuco, apenas que neste, ele canta: "Lá vem o Zumbi da Meia-Noite..". E se perde dançando na noite. Há também referências a um Zumbi diabinho malicioso, moleque. Zumbi também se diz Feiticeiro. Uma vaga tradição fala de um Zumbi retraído, misterioso, taciturno, saindo apenas à noite.
 O Vocábulo Zumbi ficou também na tradição popular para designar um ente fantástico que vagueia tarde da noite dentro das casas abandonadas.

Segundo historiadores[2], nos contos das amas de crianças, assim seria chamado um ser misterioso, uma espécie de feiticeiro, retraído, das altas horas da noite. Daí a expressão popular "Você está feito Zumbi", quando nos referimos a quem passa à noite em claro.

Estar feito Zumbi, com insônia, vagueando pela noite por esse motivo ou por hábito. Esta frase parece vir das noites sem dormir e vigílias do zumbi, o chefe negro da República do Quilombo dos Palmares, para não ser surpreendido em ataques noturnos pelos seus inimigos.

As acepções para o Zumbi são muitas. Para os Angolenses, é gente que morreu, alma do outro mundo. Na tradição oral de outras nações africanas, é fantasma, Diabo que anda à noite pelas ruas. Quando os Negros viam uma pessoa astuciosa, que se metia em encrencas, diziam: "Zumbi anda com ele",isto é, o Diabo está no corpo dele.

Às vezes ele aparece como um adulto pequeno e cresce quando alguém dele se aproxima, para curvar-se em forma de arco sobre o indivíduo.





Informações Complementares:


Nomes comuns: Zumbi, Zumbi da Meia-Noite, Zombie, Nzumbi.

Origem Provável: É quase certo que pertença a extensa Mitologia africana, embora tenha sofrido muitas variações em nossas terras.

Como um diabinho atormentador, ele se parece com o Gunocô dos Indígenas Negros Bantus e é um dos elementos constitutivos do nosso Saci-Pererê.

O Zumbi por vezes oculta-se, e impede a um cavaleiro de prosseguir. Os animais são capazes de perceber sua presença. Ele próprio pode ser percebido pelo ronco surdo, estremededor, que faz. Outras vezes, ele é a alma de um Negro que foi transformado em pássaro, e que fica ao escurecer, nas porteiras das fazendas, gemendo com seu canto fúnebre, chamando os passantes pelo nome. Às vezes, ao meio dia, canta e lamenta a vida que levou como escravo, e diz: "Zumbi... biri.. ri.. coitado.. zumbi.. biri.."

Há também o Zumbi de Sergipe, que é casado com a Caipora. Este é um negrinho como o Saci-Pererê, mas sem a carapuça vermelha, que corre através do mato ralo, a capoeira, rápido como um raio, do qual se percebe apenas um vulto que tem a cor de Ébano lustroso.

Nos mitos e Superstições negras do Haiti, há o registro dos Zombies. O Zumbi haitiano é um cadáver animado, pela força mágica de um feiticeiro. Então, como um morto vivo, será escravizado nos trabalhos do campo, sob a guarda do seu encantador. São insensíveis, quase não se alimentam, e sua comida não deve conter sal. Se provam sal, sentem que estão mortos e voltam para a sepultura, quebrando o encanto que o feiticeiro tem sobre eles.

No fabulário brasileiro, não se conhece essa modalidade sinistra de exploração humana.



Documentário:

Eis um curioso relato coletado no interior de Pernambuco, de um antigo e tradicional morador da região Agreste daquele estado. 

Viciado em Jogo de Cartas, naquela noite, perdera a noção de hora. Ao dar-se conta, descambou para casa em passos apressados. Nas ruas desertas daquela noite fria e nevoenta, nem cachorro se via pelos becos ou esquinas onde as lixeiras costumavam ser colocadas.

Foi quando escutou ao longe o barulho das primeiras badaladas do sino da igreja, anunciando meia-noite. Apressou-se ainda mais. Nesse momento viu que não estava sozinha na rua antes deserta. O ruído de passos compassados, além dos seus, sugeria companhia. Atrás dele, caminhando por uma das calçadas da rua, um vulto, à largas passadas, se aproximava. Era alto, esguio, parecia mover-se como se deslizasse pelo chão. Vestia roupas negras, um sobretudo aberto, e usava um chapéu de abas largas.

Apesar de não achar estranho, sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo. Poderia ser alguém que estava na mesa de carteado, ou na casa de jogos, mas também poderia ser um ladrão. Desconfiado e cauteloso, resolveu manter distância daquele estranho e inesperado companheiro de altas horas.

Apertou ainda mais os passos. Achou estranho que, quanto mais se distanciava, mais próximo o vulto parecia estar. Olhou outra vez e viu que ele, o vulto, aumentara de tamanho. Agora deveria medir a estatura de dois homens. Seu coração acelerou e a respiração ficou mais forte, e quando voltou a cabeça para trás mais uma vez, viu algo que o deixou congelado. O vulto agora ocupava os dois lados da rua, crescera, estava largo, com um pé em cada uma das calçadas.

E, diante dos seus incrédulos olhos, ele voltou ao tamanho normal e começou a dançar, e dizia com uma voz grossa e ritmada: "Lá vem o Zumbi da meia-noite, quiri, quiri...", para em seguida desaparecer misteriosamente deixando-o inteiramente confuso, desorientado, em pânico. Apavorado saiu em desembalada carreira rezando todas as orações que conseguia lembrar, só parando à porta de sua casa, quase sem fôlego.

Naquela noite, não conseguiu dormir.







Notas:

[1] Indivíduo Sul-africano ao qual pertenciam, entre outros, os escravos chamados no Brasil de Angolas, Cabindas, Benguelas, Congos, etc.

[2] Nina Rodrigues, o grande médico, antropólogo e pesquisador brasileiro, que usava a grafia Zambi escreveu:
...segundo a impressão que dele recebi na infância, nos contos das amas de menino, assim se designaria um ser misterioso, algo de feiticeiro, escuso e retraído, só trabalhando e andando a desoras. Daí a sentença popular "Você está feito Zambi" para crismar aquele que é de natural macambúzio, ou tem o vezo de passar as noites em claro, ou ainda prefere o trabalho a horas mortas.

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